terça-feira, 18 de abril de 2023

Dia do Índio. O Guarani e Iracema: Citações de José de Alencar

"Para eles esse sol era a imagem de sua vida; o ocaso era a sua hora derradeira: e as sombras da eternidade se estendiam já como as sombras da noite."

—  O Guarani Cap. IV, IX de José de Alencar

"Rumor suspeito quebra a doce harmonia da sesta. Ergue a virgem os olhos, que o sol não deslumbra; sua vista perturba-se. Diante dela e todo a contemplá-la, está um guerreiro estranho, se é guerreiro e não algum mau espírito da floresta. Tem nas faces o branco das areias que bordam o mar; nos olhos o azul triste das águas profundas. Ignotas armas e tecidos ignotos cobrem-lhe o corpo. Foi rápido, como o olhar, o gesto de Iracema. A flecha embebida no arco partiu. Gotas de sangue borbulham na face do desconhecido. De primeiro ímpeto, a mão lesta caiu sobre a cruz da espada; mas logo sorriu."

— Iracema, de José de Alencar

"É que o prazer e o sofrimento não passam de um contraste; em lata perpétua e continua, eles se acrisolam um no outro, e se deparam: não há homem verdadeiramente feliz senão aquele que já conheceu a desgraça."
— O Guarani Cap IV, VI de José de Alencar

"- Neste momento, Tupã não é contigo! replicou o chefe. O Pajé riu; e seu riso sinistro reboou pelo espaço como o regougo da ariranha. – Ouve seu trovão e treme em teu seio, guerreiro, como a terra em sua profundeza. Araquém proferindo essa palavra terrível, avançou até o meio da cabana; ali ergueu a grande pedra e calcou o pé com força no chão; súbito, abriu-se a terra. Do antro profundo saiu um medonho gemido, que parecia arrancado das entranhas do rochedo. Irapuã não tremeu, nem enfiou de susto; mas sentiu estremecer a luz nos olhos, e a voz nos lábios. – O senhor do trovão é por ti; o senhor da guerra será por Irapuã: disse o chefe. O torvo guerreiro deixou a cabana (…)".

— Iracema, de José de Alencar

"As altas montanhas, as nuvens, as catadupas, os grandes rios, as árvores seculares, serviam de trono, de dossel, de manto e cetro a esse monarca das selvas cercado de toda a majestade e de todo o esplendor da natureza." 

—  O Guarani Cap IV, XI de José de Alencar

"Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema(…) Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longos que seu talhe de palmeira(…)O favo de jati não era doce como seu sorriso; nem a bunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado."

— Iracema, de José de Alencar

Ditados e sabedoria nativa Americana


Antes de comer, sempre aproveite para agradecer a comida.

– Ditado Arapaho

A natureza não é para nós. Ele é parte de nós. Ela é parte de sua família e de seu mundo. 

– Sabedoria Nativa Americana

É melhor ser pobre do que ser desonesto. 
– Anishinabe

Seremos conhecidos sempre pelas pegadas que deixamos. 
– Sabedoria Dakota

A força, não importa o quão oculta, gera resistência. 
– Ditado Lakota

Os pensamentos são como flechas: uma vez lançadas, alcançam o seu alvo. Seja cauteloso ou poderá um dia vir a ser vitima de si próprio! 

– Provérbio Navajo

A lei do homem muda com sua compreensão do homem. Só as leis do espírito permanecem sempre as mesmas. 

– Ditado Crow

Não tenha medo de chorar. Libertará sua mente de pensamentos tristes. 

– Ditado Hopi

É melhor ter menos trovões na boca e mais relâmpagos na mão. 

– Ditado Apache

Trate bem a terra: Ela não foi dada a você por seus pais, foi emprestada a você por seus filhos. Nós não herdamos a Terra de nossos ancestrais, nós a pegamos emprestado de nossos filhos. 

– Provérbio nativo americano

 

Citações sobre leitura




"A leitura nutre a inteligência."

- Sêneca



"Não se adquire um bom vocabulário com a leitura de livros escritos conforme uma ideia do que seja o vocabulário da faixa etária do leitor. Ele vem da leitura de livros acima da.   sua capacidade."

- J.R.R. Tolkien



"Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de biblioteca."

- Jorge Luis Borges



"Em ciência leia sempre os livros mais novos. Em literatura, os mais velhos."
- Millôr Fernandes



"A leitura engrandece a alma."
- Voltaire



"O amor a leitura é um presente do céu."

- Francois Fénelon



"A leitura é, provavelmente, uma outra maneira de estar em um lugar."

- José Saramago



"Muitos homens iniciaram uma nova era na sua vida a partir da leitura de um livro."
- Henry David Thoreau



"Não existem livros morais ou imorais. Os livros são bem ou mal escritos."
- Oscar Wilde


"A leitura é uma fonte inesgotável de prazer mas por incrível que pareça, a quase totalidade, não sente esta sede."

- Carlos Drummond de Andrade



"Um livro deve ser o machado que quebra o mar gelado em nós."
- Franz Kafka



 "A leitura de todos os bons livros é uma conversação com as mais honestas pessoas dos séculos passados."

- René Descartes



"A leitura é para a mente o que o exercício é para o corpo."

- Richard Steele

O tempo é um rato roedor das coisas - Machado de Assis

 

"O tempo é um rato roedor das coisas, 

que as diminui ou altera 

no sentido de lhes dar outro aspecto."

Machado de Assis




A assembleia dos ratos - Esopo

 

A assembleia dos ratos

Fábula de Esopo


Era uma vez uma colônia de ratos, que viviam com medo de um gato, resolveram fazer uma assembleia para encontrar um jeito de acabar com aquele transtorno.



Muitos planos foram discutidos e abandonados. 


No fim um jovem e esperto rato levantou-se e deu uma excelente ideia; a de pendurar uma sineta no pescoço do gato. Assim, sempre que o gato tivesse por perto eles ouviriam a sineta e poderiam fugir correndo. Todos os ratos bateram palmas: o problema estava resolvido.


Vendo aquilo, um velho rato que tinha ficado o tempo todo calado levantou-se de seu canto. O velho rato falou que o plano era muito inteligente e ousado, que com toda a certeza as preocupações deles tinham chegado ao fim. Só faltava uma coisa: quem ia pendurar a sineta no pescoço do gato?

Moral da história:

Falar é fácil, fazer é que é difícil. As vezes não basta ter uma boa ideia, é preciso descobrir como fazê-la acontecer na prática. Isso significa que preciso considerar todos os detalhes e desafios que podem surgir ao tentar transformar uma ideia em realidade.

segunda-feira, 17 de abril de 2023

Duas poesias de autores nórdicos


Poema IV

Einar Már Guðmundsson (Islândia)



Um espelho fala em meio ao sono,

absorve a realidade.

Lá fora espelham-se as nuvens, navegam no céu

como um navio em direção ao porto.


Quantos portos há no céu?

Pergunte ao espelho, antes que a realidade acorde

e o silêncio assuma.

Ele é sedento como as nuvens.


Tudo isso acontece na alma.

As palavras flutuam no céu

e se levantam do abismo,

caminham cidades adentro

e se espelham nas nuvens

como as cores na luz.

*

Original:

[IV]


Spegill talar upp úr svefni,

drekkur í sig veruleikann.

Úti speglast skýin, sigla um himininn

einsog skip á leið til hafnar.


Hvað eru margar hafnarborgir á himnum?

Spurðu spegilinn, áður en veruleikinn vaknar

og þögnin tekur við.

Hún er þyrst einsog skýin.


Þetta gerist allt í sálinni.

Orðin svífa um himininn

og stíga upp úr djúpinu,

ganga inn í borgirnar

og spegla sig í skýjunum

einsog litirnir í ljósinu.


*Traduzido do islandês por Francesca Cricelli.




 

Poema 50

Sondre H. Bjørgum (Noruega)



daqui pra frente não sei mais nada

digo

é mais do que suficiente

dizes

enquanto as montanhas à nossa volta

desmoronam

no fiorde

*

Original:

[50]


frå no av veit me ingenting

seier eg

det er meir enn nok

seier du

medan fjella rundt oss

rasar ned

i fjorden


*Traduzido do norueguês-nynorsk por Luciano Dutra.

Seis poesias sobre o mar de autores famosos


A descoberta 

Oswald de Andrade


Seguimos nosso caminho por este mar de longo

Até a oitava da Páscoa

Topamos aves

E houvemos vista de terra

os selvagens

Mostraram-lhes uma galinha

Quase haviam medo dela

E não queriam por a mão

E depois a tomaram como espantados

primeiro chá

Depois de dançarem

Diogo Dias

Fez o salto real

as meninas da gare

Eram três ou quatro moças bem moças e bem gentis

Com cabelos mui pretos pelas espáduas

E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas

Que de nós as muito bem olharmos

Não tínhamos nenhuma vergonha.



Oceano nox 

Antero de Quental


Junto do mar, que erguia gravemente

A trágica voz rouca, enquanto o vento

Passava como o voo do pensamento

Que busca e hesita, inquieto e intermitente,


Junto do mar sentei-me tristemente,

Olhando o céu pesado e nevoento,

E interroguei, cismando, esse lamento

Que saía das coisas, vagamente…


Que inquieto desejo vos tortura,

Seres elementares, força obscura?

Em volta de que ideia gravitais?


Mas na imensa extensão, onde se esconde

O Inconsciente imortal, só me responde

Um bramido, um queixume, e nada mais…




Uma após uma as ondas apressadas
Ricardo Reis (Fernando Pessoa)


Uma após uma as ondas apressadas
Enrolam o seu verde movimento
E chiam a alva espuma
No moreno das praias.

Uma após uma as nuvens vagarosas
Rasgam o seu redondo movimento
E o sol aquece o espaço
Do ar entre as nuvens escassas.

Indiferente a mim e eu a ela,
A natureza deste dia calmo
Furta pouco ao meu senso
De se esvair o tempo.

Só uma vaga pena inconsequente
Para um momento à porta da minha alma
E após fitar-me um pouco
Passa, a sorrir de nada.




Em uma tarde de outono
Olavo Bilac


Outono. Em frente ao mar. Escancaro as janelas
Sobre o jardim calado, e as águas miro, absorto.
Outono… Rodopiando, as folhas amarelas
Rolam, caem. Viuvez, velhice, desconforto…

Por que, belo navio, ao clarão das estrelas,
Visitaste este mar inabitado e morto,
Se logo, ao vir do vento, abriste ao vento as velas,
Se logo, ao vir da luz, abandonaste o porto?

A água cantou. Rodeava, aos beijos, os teus flancos
A espuma, desmanchada em riso e flocos brancos…
Mas chegaste com a noite, e fugiste com o sol!

E eu olho o céu deserto, e vejo o oceano triste,
E contemplo o lugar por onde te sumiste,
Banhado no clarão nascente do arrebol…




SONETO LXV

William Shakespeare


Se a morte predomina na bravura

Do bronze, pedra, terra e imenso mar,

Pode sobreviver a formosura,

Tendo da flor a força a devastar?

Como pode o aroma do verão

Deter o forte assédio destes dias,

Se portas de aço e duras rochas não

Podem vencer do Tempo a tirania?

Onde ocultar - meditação atroz -

O ouro que o Tempo quer em sua arca?

Que mão pode deter seu pé veloz,

Ou que beleza o Tempo não demarca?

Nenhuma! A menos que este meu amor

Em negra tinta guarde o seu fulgor.



 Mar português

Fernando Pessoa


Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!


Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele é que espelhou o céu.

domingo, 16 de abril de 2023

Três poesias sobre flores de autores famosos

Idílio, de Antero de Quental


Quando nós vamos ambos, de mãos dadas,

Colher nos vales lírios e boninas,

E galgamos dum fôlego as colinas

Dos rocios da noite inda orvalhadas;


Ou, vendo o mar, das ermas cumeadas,

Contemplamos as nuvens vespertinas,

Que parecem fantásticas ruínas

Ao longe, no horizonte, amontoadas:


Quantas vezes, de súbito, emudeces!

Não sei que luz no teu olhar flutua;

Sinto tremer-te a mão, e empalideces…


O vento e o mar murmuram orações,

E a poesia das cousas se insinua

Lenta e amorosa em nossos corações.


Cantiga, de Cecília Meireles


Ai! A manhã primorosa

do pensamento…

Minha vida é uma pobre rosa

ao vento.


Passam arroios de cores

sobre a paisagem.

Mas tu eras a flor das flores,

Imagem!


Vinde ver asas e ramos,

na luz sonora!

Ninguém sabe para onde vamos

agora.


Os jardins têm vida e morte,

noite e dia…

Quem conhecesse a sua sorte,

morria.


E é nisto que se resume

o sofrimento:

cai a flor, — e deixa o perfume

no vento!


Livros e flores, de Machado de Assis


Teus olhos são meus livros.

Que livro há aí melhor,

Em que melhor se leia

A página do amor?


Flores me são teus lábios.

Onde há mais bela flor,

Em que melhor se beba

O bálsamo do amor?