Vinicius de Moraes era boêmio, fumante, amante de uísque e de mulheres (casou-se nove vezes), diplomata, dramaturgo, jornalista, advogado, poeta, compositor, um homem multifacetado, que viveu em “um labirinto em busca de uma saída”.
Era um apaixonado pela vida, que para ele era a arte dos encontros, entretanto, mostrava sua forma paradoxal de enxergá-la, pois completava o verso com embora haja tantos desencontros pela vida. Vinicius era ao mesmo tempo: viril e terno; transcendente e carnal. Suas obras são múltiplas, como o próprio Poetinha – termo com que era carinhosamente chamado por Tom Jobim (um de seus parceiros na música), e estão presentes na literatura, no teatro, no cinema e, claro, na música.
Suas obras são lugares de encontros e despedidas, caminhando para a percepção do material da vida, do amor e da mulher. Ele é considerado um dos poetas mais sensuais. A fama iniciou entre os anos de 1943 e 1946 com as obras “Cinco Elegias” e “Poemas, sonetos e baladas”. No entanto, ao se autodefinir, Vinicius de Moraes dizia ser “só um poeta do cotidiano”.
O cotidiano está presente em todas as suas obras. Compartilhando a temática das gerações de 30 e de 45, Vinicius preocupava-se com as questões universais do homem e com os problemas da sociedade capitalista.
Aqui fica registrado três poemas ( que tornaram-se músicas ) selecionados onde podemos observar uma carga de dramaticidade profunda e pouco popularizada entre as novas gerações, a exceção de Rosa de Hiroshima. São todos a visão do poeta sobre a sociedade de seu tempo.
Poema de Natal
"Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente."
A rosa de Hiroshima
"Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida.
A rosa com cirrose
A antirrosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada."
A uma mulher
"Quando a madrugada entrou eu estendi o meu peito nu sobre o teu peito
Estavas trêmula e teu rosto pálido e tuas mãos frias
E a angústia do regresso morava já nos teus olhos.
Tive piedade do teu destino que era morrer no meu destino
Quis afastar por um segundo de ti o fardo da carne
Quis beijar-te num vago carinho agradecido.
Mas quando meus lábios tocaram teus lábios
Eu compreendi que a morte já estava no teu corpo
E que era preciso fugir para não perder o único instante
Em que foste realmente a ausência de sofrimento

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